Quando falamos do trabalho do pastor, a primeira coisa que precisamos considerar é que a Igreja tem duas dimensões: Ela é, ao mesmo tempo, organismo e organização. Como organismo, a Igreja é formada por todos aqueles que nasceram de novo, em qualquer denominação, é liderada pelo Espírito Santo e é considerada invencível. Por outro lado, como organização, ela é liderada por seres humanos que possuem falhas e limitações. Para liderar a sua Igreja, o Senhor Jesus deu os dons ministeriais, que são: apóstolos, evangelistas, profetas, pastores e mestres, querendo o aperfeiçoamento dos santos e a edificação do corpo de Cristo (Ef 4.11,12). Precisamos também considerar que dom ministerial é diferente de cargo ministerial. Dom ministerial é a capacitação sobrenatural que Deus concede ao cristão para servir à Igreja de Cristo. O cargo ministerial é a função que a pessoa exerce na Igreja local, que varia de acordo com a denominação e a necessidade.
Sendo a Igreja uma organização, ela precisa escolher pastores, substituir e até afastá-los das funções ministeriais. Para fazer isso, como em toda organização, precisa seguir os seguintes passos: recrutamento e seleção, treinamento e avaliação de desempenho. Para falar sobre este último, se faz necessário, falar antes das formas de administração eclesiástica, pois, em cada uma delas o papel do pastor é diferente.
1. Formas de administração de Igrejas. Enquanto organização, a Igreja precisa ser administrada e, há pelo menos, três formas de administração eclesiástica no meio evangélico, ignorando-se, claro, aquelas ’igrejas’ que tem dono e uma pessoa sozinha faz o que quer:
a. Episcospal ou assembleiana. Neste modelo, a Igreja é dirigida por uma assembléia de bispos ou pastores. O pastor local, além de cuidar da parte espiritual (evangelização, oração, visitas e ensino da Palavra de Deus) cuida também da administração local (finanças, manutenção, construção, reformas, etc), sendo subordinado ao bispo, pastor-presidente ou pastor setorial.
b. Presbiteral. A Igreja é dirigida por um corpo de presbíteros. O pastor local cuida apenas da parte espiritual. Toda a parte administrativa fica a cargo do presbitério. Neste modelo não há pastor presidente ou Igreja sede.
c. Congregacional. A administração da Igreja fica a cargo de uma junta administrativa, que é escolhida periodicamente em votação pelos membros da Igreja. O pastor local fica subordinado a esta junta e também não cuida da parte administrativa, que fica a cargo da junta administrativa. É também um modelo de Igreja local e não há Igreja sede e pastor presidente.
2. A necessidade de avaliação. Em todas as organizações a avaliação dos colaboradores, principalmente dos gestores, é indispensável. A avaliação de tempos em tempos, serve para a organização aferir se os seus gestores estão atendendo aos objetivos da instituição, para corrigir eventuais desvios de finalidade, promover os que se destacam e substituir os que não se adequaram a determinadas funções, ou remanejá-los para outras, nas quais o colaborador seja mais eficiente.
Partindo desta premissa, os próprios colaboradores devem também fazer as suas autoavaliações e autocríticas. Em qualquer função que estivermos, precisamos refletir sobre o que fazemos, como fazemos, para quem fazemos e que resultados produzimos.
Com a Igreja, enquanto organização, não é diferente. Do ponto de vista espiritual, como organismo, evidentemente, é Deus que chama os pastores e os capacita para a sua obra. Se quiser tirar alguém do ministério pastoral, Ele é soberano para fazê-lo. A Igreja não tem ministério ou chamada ministerial para oferecer a ninguém. Isso vem de Deus e a denominação apenas reconhece esta chamada. Entretanto, os líderes da Igreja não são oniscientes e precisam ter critérios para selecionar os candidatos ao ministério.
Depois de escolhidos e empossados, não pode parar no tempo, com desculpas de “não toqueis nos ungidos” ou que os pastores não podem ser questionados. É preciso haver avaliação do trabalho do pastor, para que seja possível corrigir eventuais equívocos e reciclar periodicamente os conhecimentos e habilidades do ministro.
3. Critérios para uma avaliação justa e eficiente. Eu nunca fui pastor titular em uma Igreja, mas já fui e ainda sou pastor auxiliar, ou co-pastor, como é costume em nossa denominação. Uma das queixas que mais ouço é que determinado pastor foi injustiçado ou que os motivos, pelos quais ele foi substituído, são equivocados. Já vi excelentes pastores, que estavam fazendo um excelente trabalho e que tinham total apoio da congregação, serem substituídos repentinamente, sem um motivo que justificasse a substituição. Por outro lado, já vi também pastores que maltratavam a Igreja, pregavam coisas estranhas e não tinham compromisso com a Igreja, que demoraram anos à frente de uma congregação.
Embora não se admitam publicamente, talvez para não escandalizar, os principais critérios utilizados para avaliar o trabalho de um pastor nas congregações são: o relatório financeiro e o número de pessoas batizadas. Se as contribuições caírem e a Igreja não apresentar candidatos ao batismo, em pouco tempo o pastor será substituído. Embora estas duas questões sejam importantes, pois a Igreja não sobrevive sem contribuições e o seu principal objetivo é alcançar almas para Cristo, não se pode medir a qualidade do trabalho de um pastor avaliando apenas estes dois ítens. Até porque, um mau pastor pode fazer um péssimo trabalho e alcançar bons resultados nestes dois quesitos. Explico: Ele pode distorcer a Palavra de Deus e, com isso aumentar a arrecadação e batizar pessoas que não nasceram de novo, apenas para apresentar números ao ministério.
O que fazer, então, para se fazer uma avaliação justa e que reflita a realidade do desempenho do pastor na congregação?
a. Deve-se avaliar a conduta pessoal do pastor. Paulo disse a Timóteo: “Tem cuidado de ti mesmo...”. (1 Tm 4.16a). O pastor deve ser o exemplo para os fiéis e tem práticas que são incompatíveis com a vida cristã, principalmente, com o ministério pastoral. As Igrejas devem manter em perfeito funcionamento e com total independência, os conselhos de ética, para apurar e julgar, suspeitas e denúncias contra pastores. Evidentemente, não se pode aceitar denúncias levianas e sem provas. Mas não se pode fechar os olhos para denúncias graves de pecados e condutas incompatíveis com a fé cristã, pois, isso mancha a reputação da Igreja e escandaliza o Evangelho.
b. Deve-se avaliar o que ele está pregando. Um pastor deve ler bastante e fazer cursos periódicos para aperfeiçoar o seu conhecimento. Mesmo o pastor sendo aprovado no item anterior, tem que se avaliar o que ele está pregando, se está de acordo com a Palavra de Deus. Paulo falou para Timóteo cuidar também “...da doutrina”. Em vários textos o apóstolo recomenda a Timóteo e a Tito para que preguem a Palavra e Sã Doutrina.
c. Deve-se avaliar o perfil da Igreja para saber qual pastor se encaixa melhor ali. Há pastores que têm boa conduta cristã e pregam a sã doutrina com fidelidade. Mas, não tem habilidades para lidar com certos conflitos e características de algumas Igrejas. Por isso, além de não resolver os problemas, podem agravá-los.
d. Deve-se avaliar as circunstâncias pessoais da vida do pastor. O pastor é um ser humano como qualquer outro e trabalha sob constante pressão. Sendo assim, é importante o Ministério abrir espaço para o pastor falar dos seus problemas pessoais e, se for o caso, ajudá-lo, pois quem não está bem não tem condições de estar à frente de uma Igreja.
4. A autoavaliação e autocrítica do pastor. Além da avaliação do desempenho do pastor feita pelo ministério, é importante que o próprio pastor faça uma autoavaliação e autocrítica do seu trabalho. Ele deve reconsiderar a sua chamada e ter certeza de que Deus o chamou para o ministério pastoral. Um pastor que não foi chamado por Deus para este ministério, não suportará as pressões e dificuldades inerentes ao cargo e irá se desviar dos propósitos do ministério pastoral. O pastor deve também avaliar honestamente o próprio trabalho. É importante ele ouvir os próprios sermões e reler os seus esboços, para saber se está pregando fielmente a Palavra de Deus. Um importante aliado na auto avaliação é considerar todas as críticas e não tratá-las como rebeldia ou "levante do inimigo". As críticas de pessoas sinceras e tementes a Deus nos levam à reflexão e à correção de equívocos. O pastor que quiser ter um ministério eficiente, jamais deve tentar silenciar os seus críticos. É muito importante também que o pastor não se cerque de bajuladores, pois estes são desonestos, hipócritas, não fazem críticas e os seus elogios são falsos e interesseiros.
Tão importante quanto uma boa seleção de obreiros é o treinamento e avaliação periódicos do seu ministério. A rotina é parceira da acomodação, do desleixo e da desmotivação. Sendo assim, um obreiro que era excelente no início do ministério pode se tornar ultrapassado, ranzinza, ditador e herege com o passar dos anos. Somente com a observação e avaliação de desempenho é possível detectar os problemas, buscar soluções, apoiar os bons pastores e retirar os maus. Também é possível remanejar os que estão no lugar errado e preparar os que não estão aptos para o pastorado.
Deus abençoe os nossos pastores!
Weliano Pires é professor da Escola Dominical e evangelista da Assembleia de Deus, Ministério do Belém, em São Carlos, SP.